PENSAR ALTO

Não raro, dou por mim a pensar como é que se pode desenhar e antecipar o futuro, se não conhecermos, ou não formos capazes de interpretar o passado.
Como poderemos nós intervir na construção do advir, se não conseguirmos identificar os diversos momentos históricos, relevantes e ligados entre si, que nos trouxeram até aqui.
O Pinhal de Leiria, assim chamado por, na época, ainda não existir o lugar da Marinha Grande, terá sido, segundo alguns historiadores, mandado plantar por D. Afonso III, mas foi, de facto, D. Dinis, que lhe deu importância e dimensão, introduzindo intensivamente o pinheiro bravo.
Funcionando primeiro como uma barreira que susteve o avanço das areias do mar, o Pinhal do Rei, também assim chamado, veio a ter um papel fundamental no fornecimento da madeira com que se construíram as Naus que levaram Portugal ao Mundo por descobrir.
No século XVIII, a madeira do Pinhal, olhada como combustível e as areias das nossas praias avaliadas como boas matérias primas, motivaram o Marquês de Pombal a conceder grandes benefícios aos irmãos Stephens para montarem uma moderna fábrica de vidros na Marinha Grande, sucedendo à de Coina, que havia encerrado.
É assim, assente na importância do Pinhal de Leiria e no papel que lhe estava atribuído, que se inaugura a Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande, em 1769. Foi daqui que saiu a vidraça com que se reconstruiu Lisboa após o terramoto de 1755.
A história da Indústria de Moldes Portuguesa, já no início do Sec. XX, através de Aires Roque e Aníbal Abrantes, tem a sua génese na evolução da Indústria do vidro.

De facto, foi graças a um senhor inglês, chamado Stephens que, acompanhado por vários artesãos de apurada perícia, oriundos de Génova e de Lisboa, foi criada a “Fábrica-Escola Irmãos Stephens , de onde resultaria uma intensa actividade empresarial em diversos sectores, que fazem hoje da Marinha Grande e de Oliveira de Azeméis, referências industriais mundiais.

Foi também já no século XX, que se começaram a produzir os primeiros moldes para vidro, pois até então em Portugal, a necessidade deste tipo de moldes era satisfeita através da importação de moldes da Alemanha e da Áustria.

É deste lastro que podemos extrair a conclusão de que temos aqui um quase completo cluster industrial, onde o elemento que se soltou da cadeia foi a produção do vidro do subsector do cristalaria manual, permanecendo pujante o sector do vidro automático, especialmente a embalagem.

Olhando hoje para este quadro, como se de uma tela se tratasse, vemos lá, intacta, a imensa mancha verde do Pinhal, que representa mais de 60% do nosso território, vemos a indústria vidreira de vidro automático e tecnologia de ponta, considerada uma das mais evoluídas da Europa, observamos uma indústria de Moldes reconhecida como das melhores do Mundo e a indústria de Plásticos que se vem a afirmar como um sector em acelerado crescimento, tecnologicamente avançada e com uma notável capacidade de progressão.

Olhando para os detalhes desta tela pintada com o saber das nossas gentes, podemos observar um Património Histórico recentemente reconstruído, uns notáveis espaços verdes de fruição pública, um Centro Tradicional decrépito e abandonado e um enorme buraco negro, a representar a nossa incapacidade colectiva para gerir este Património de elevadíssimo valor que nos foi deixado.

Sigamos uma ordem e fixemo-nos na Mata Nacional.

Abrem-se agora possibilidades de vir a ser a Autarquia a gerir este tesouro concelhio. Na minha opinião, a Mata tem que continuar a ser administrada com o máximo rigor e encarada sempre como o valor maior, sem que isso impeça o uso do bom senso, no jogo de equilíbrios que será necessário fazer.

O potencial de desenvolvimento que pode ser aportado através das Matas é enorme. Desde logo a recuperação do seu acervo como núcleo museológico e a sua utilização intensiva como produto turístico.

A recuperação de pavimentos, a sinalização e marcação de percursos pedestres, quer para lazer, quer para a prática do desporto de orientação. A definição de trilhos, bem sinalizados, que possam ser utilizados para os amantes do ciclo-cross e de alguns desportos motorizados. A adequada sinalização e criação de mapas com a localização de árvores notáveis. A recuperação das casas das Matas, podendo algumas delas ser alienadas, mas outras usadas como pousadas da Juventude ou Centros de Educação Ambiental. Tudo isto, feito num espaço florestal dos mais qualificados do País, assim considerado por muitos técnicos florestais estrangeiros que nos visitam, poderia vir a ser uma poderosa ferramenta para alavancar o turismo de permanência em época média e baixa.

Passemos ao Vidro e ao Património que lhe está associado.

Parece evidente que tentar recuperar a produção de vidro artesanal com fins comerciais, é uma impossibilidade económica. No entanto, o Museu do Vidro está morto, o Cencal sobrevive com dinheiro público e alguns artesãos que restam vão resistindo, até que as mãos lhes tremam, sem que a sua arte se renove.

Será o fim? Será que velhos oficiais vidreiros, agora reformados, vão acabar os seus dias sem as memórias da boca do forno incandescente?

Na minha opinião, não terá que ser assim.

Nós temos que acabar aquilo que começámos. É preciso e urgente criar o Polo do Museu vivo, com um forno de fusão e com um, ou mais, mestres vidreiros a produzirem, ao vivo, para um auditório de 40 ou 50 lugares sentados, peças numeradas de sua autoria, ou cópias de peças do acervo do Museu, que seriam vendidas em local próprio.

Por detrás da Biblioteca deveriam reconstruir-se espaços para a lapidação à roda, para a pintura à mão e para a pantografia, recuperando o pantógrafo que penso ainda existe.

Depois de adquirida a FEIS, toda a ala construída com frente para a Av. José Gregório deveria ser transformada em ateliers de artesanato com porta e montra para a avenida. Um tanque de gás colectivo abasteceria todos os artesãos. Acrescentava-se vida à avenida, cor, movimento.

É preciso somar o valor que falta áquilo que já está feito. O Museu, tal como existe, não atrai ninguém. Nem mesmo os marinhenses o conhecem. O que os visitantes procuram é o bailado das canas com o vidro incandescente na ponta. É o soprar, o rodopiar, o moldar, o repuxar com o alicate, o cortar com a tesoura e, finalmente, olharem para uma peça que reflecte a mestria e a arte de quem a produziu.

Somos uma terra de vidreiros. Concretizar estes sonhos custará pouco mais do que se gasta em iniciativas mais ou menos folclóricas, que culturalmente não nos dizem nada.

Todas estas iniciativas, já de si poderosas forças de atracção à zona central da cidade, associadas a outros equipamentos construídos nas imediações e criminosamente abandonados, como o Novo Mercado Atrium, a instalação dos serviços de Conservatórias no espaço que lhe estava reservado no Edifício da Resinagem e um Programa de Recuperação do património privado construído, usando todas as ferramentas previstas na Lei, iriam permitir reconverter as funcionalidades dos edifícios, privilegiando a habitação para população mais jovem.

É urgente dar prioridade às ciclovias e promover ligações funcionais desde a Zona desportiva até ao Centro da cidade. Reduza-se a largura de faixas de rodagem, criem-se pistas só pintadas no pavimento. Incrementem a utilização da TUMG. Criem, como estava previsto, um Centro Multimodal de transportes e uma linha dedicada com um autocarro, tipo shutle, a fazer só o percurso pelas ruas pedonais do Centro Histórico. Promova-se a animação de rua nessas zonas, como agora se fez para a celebração da Primavera, mas com um calendário anual definido, com incidência nos fins de semana.

É preciso fazer alguma coisa, mas para que algo se faça, é preciso que o sonho comande a vida e que a utopia se sobreponha à incapacidade de pensar e de fazer.

Espalhar alcatrão à tonelada é fácil, não sei se é barato e já nem sei se dá votos.

Sobre Armando Constâncio

O meu nome é Armando Gonçalves Constâncio dos Santos, casado, com dois filhos. Nasci em 26 de Abril de 1948, em casa, no Casal da Formiga, cujo parto foi assistido pelo saudoso Dr. Coelho. Fiz a 3.ª classe na Marinha Grande, mas, em 1958, por altura das eleições em que participou Humberto Delgado, o meu pai foi despedido da Caixa do Pessoal da Indústria Vidreira, por razões políticas e eu tive que ir viver com os meus avós maternos para a aldeia de Pereira do Campo, entre Alfarelos e Coimbra, onde fiz a 4.ª classe. Já a vivermos em Lisboa, para onde o meu pai teve que deslocar a família, para tentar sobreviver vendendo vidro à comissão, comecei a trabalhar aos 14 anos e a estudar de noite. Aos 16 anos embarquei para Angola, sozinho, para me juntar à família que já lá estava, tendo começado de imediato a trabalhar na empresa onde trabalhava o meu pai, prosseguindo os meus estudos à noite. Após o 25 de Abril de 1974, fiz parte da Comissão Coordenadora da 1.ª Comissão de trabalhadores da SIGA, onde trabalhavam cerca de 1300 pessoas. Aderi ao MPLA e participei na organização da UNTA, Central Sindical do movimento. Em 14 de Novembro de 1975, após ter escapado de algumas tentativas de assassinato tentado pela FNLA, fui o último membro da família a abandonar Angola, por razões de segurança, tendo embarcado no navio Russo Ucrânea. Já na Marinha Grande, a viver em casa dos meus pais, juntamente com toda a restante família, consegui emprego na Iberoplás, como responsável da secção de recursos humanos, tendo evoluído para Director Comercial no início da década de 80. Fui membro da Comissão de Trabalhadores da Iberoplás, delegado sindical e dirigente sindical do Sindicato dos Trabalhadores de Comércio e Escritório do Distrito de Leiria. Em 1986, a convite da CDU, integrei em 4.º lugar a lista concorrente à CMMG, liderada por Emílio Rato, que ganhou as eleições com maioria absoluta. Nesta época, tive um papel importante no arranque da Zona Industrial da Marinha Grande e na organização das Feiras de Actividades Económicas, a primeira das quais foi no SOM, inaugurada pelo Presidente da República Mário Soares. Em Junho de 1989, seis meses antes de acabar o mandato, renunciei ao cargo de vereador a tempo inteiro e aceitei um convite da Iberomoldes para exercer o cargo de Director Geral da Edilásio Carreira da Silva, contra a vontade do PCP, que contava comigo para número 2 da lista que iria ser liderada por João Barros Duarte às eleições desse ano, que a CDU ganhou. A minha carreira na Edilásio foi interrompida, numa altura dramática da minha vida pessoal, após insistentes convites do PS para integrar a lista liderada por Álvaro Órfão, como independente, às eleições de 1993, que o PS ganhou, interrompendo um ciclo de 15 anos de gestão municipal da CDU. Fui vice presidente da CMMG durante 12 anos. Acabada a minha participação política, encerrado este capítulo demasiado longo do exercício de funções públicas, tentei voltar à Edilásio, para ocupar o lugar que detinha antes de ser eleito, nos termos da Lei, mas foi-me dito, com mais ou menos delicadeza, que após 12 anos de ausência o meu lugar tinha sido preenchido, as dificuldades porque passavam as empresas na altura impediam acréscimos de custos e eu era dispensável. Nada que eu não tivesse previsto. Em finais de 2015, decidi adquirir uma pequena empresa de cartonagem em Vieira de Leiria, tendo obtido financiamento integral, em forma de leasing, para poder concretizar o negócio, que ainda hoje se mantém.
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5 respostas a PENSAR ALTO

  1. António Carlos Jordão diz:

    Caro Armando Constâncio

    Eu diria “Pensar Certo”!
    Diria que está certo este seu discurso. Já tenho falado muita vez aqui nisto, penso que a melhor forma de revitalizar o centro da Marinha Grande era uma espécie de “Lx factory”. Inclui artistas a trabalhar ao vivo, bibliotecas, restauração – sempre importante para atrair visitantes, artesanato…etc.

    Passar as matas para a esfera do poder do município é que não me parece uma “boa ideia”! Se a câmara não se entende com coisas simples… com a mata… não sei não!

  2. Octávio diz:

    Pois, só posso concordar com aquilo que o A Constâncio aqui expõe, como sempre de modo explícito e conciso, bem como com a opinião do C Jordao.
    Abraço a ambos

  3. Maria João Gomes diz:

    Assistir à fabricação de vidro manual é uma experiência inesquecível. Os movimentos das mãos do vidreiros são como uma dança, obedecendo a uma coreografia muito própria e fascinante.
    Como co- responsável pela criação do centro de visitas da Atlantis, pude constatar como essa magia se transmitia aos visitantes que percorriam o circuito da produção. E vinham às centenas, diariamente.
    Sempre defendi que esse património único e inestimável não ficasse esquecido e deveria ser preservado, através de um estúdio, que serviria de âncora ao Museu do Vidro, gerando significativos fluxos de tráfego, com pacotes turísticos educativos adaptados aos públicos alvo.
    Um estúdio com diferentes valências: mostra da fabricação para os visitantes; produção de réplicas de peças expostas no museu e de outras peças, para venda numa loja do museu; local de realização de workshops e de estágio para designers nacionais e estrangeiros; produção de peças para uma coleção itinerante do museu que viajaria para exposições noutros museus e o projetaria para fora de portas.
    Com parcerias com o Mestrado de “Arte, Ciência e Vidro” da Universidade Nova, Instituto Politécnico de Leiria, Cencal e outras Universidades e Centros de Formação nacionais e estrangeiros.
    E patrocínio/Mecenato de empresas como a Santos Barosa, Vidrala ou Barbosa e Almeida e de Fundações como EDP ou Galp.
    Posso acrescentar que a minha paixão por um projeto destes me levou a conversar algumas vezes com o Sr. Noivo, que, gentilmente, me deu algumas informações sobre os equipamentos , os consumos e os recursos humanos necessários, bem como o merchandising que contribuísse para a sua sustentabilidade. E não se trata de nenhum projeto de custos muito elevados. E do ponto de vista dos benefícios que poderia trazer ao concelho, acredito que seriam mais que positivos.

  4. Armando Constâncio diz:

    O comentário da Maria João reconforta-me a alma.
    Ainda há quem pense a Marinha Grande e a sua matriz, o vidro, com o coração e felizmente há quem saiba como fazer e bem, o que já deveria ter sido feito há muito tempo.
    A Maria João sabe, o Sr. Noivo, o Álvaro Órfão e muitos outros poderiam, se fossem abordados, apresentar um estudo de viabilidade económico-financeira, para candidatar ao programa 20/20.

  5. Antonio Carlos Jordao diz:

    Perdoem-me se vou dizer alguma asneira, mas a “Jasmim” não foi criada pelo Sr. Américo Gonçalves e pelo Sr. Noivo com o objectivo de ter ao vivo vidreiros a trabalhar o vidro? Estou em crer que sim!
    O programa 20/20, a que muitos municípios estão a recorrer, servem para isso mesmo, para preparar o futuro, e cabe na perfeição na proposta muito bem apresentada pela D.ª Maria João! E estou em crer, que todas as empresas citadas não, recusariam apoiar uma iniciativa deste calibre!
    No entanto é preciso ir ter com elas… pois ficar sentado, não traz nada à Marinha, a não ser…preguiça!

    Turismo na Marinha não existe, a não ser em S, Pedro de Moel e só no verão! Quem se dirige à Marinha Grande vem ver o quê? Onde se dirige? Onde há indicações e informações? Todos os meus amigos quando lhe quero explicar um local na cidade…perdem-se!

    Abraço

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