Penso-Rápido

“(…) é necessário uma rutura nas formas tradicionais de governança de modo a ter boas práticas municipais que se caraterizem pela inovação e boas práticas de governança territorial”.
(Carta Estratégica da Marinha Grande, 2016)

Esta que será, porventura, a chave de leitura dos próximos anos para «Pensar (e)M Grande» ou «Pensar a Marinha Grande» está a ser usada como lema de campanha eleitoral. E é uma boa escolha, admito-o!

Mas se apenas servir de «chavão» para tentar convencer de que a forma de governação que se propõe fazer é diferente da que foi feita até agora, de muito pouco acrescenta ou clarifica, porque outra coisa não se espera de quem se apresenta a votos em oposição à atual, e anterior(es), liderança(s)!

É basicamente dizer o óbvio!

Importa assim esclarecer o que se entende por «formas tradicionais de governança», o que cabe dentro do conceito de «inovação e boas práticas», o que é isso de «governança territorial» e, por fim mas não menos importante, como se poderá fazer uma «rutura» (que não é apenas teórica, mas implica a mudança de mentalidades, de formas de estar e de trabalhar, etc.) com essa realidade sem colocar em causa a estabilidade necessária à própria governação.

A mesquinhez com que se fazem muitas das discussões políticas, fazendo enormes questões que são de gestão diária corrente, ou menosprezando pela demasiada simplicidade com que se resolvem questões estratégicas, é disso bem demonstrativa.

A decisão sobre o futuro do Mercado Municipal é apenas o epílogo dessa incapacidade generalizada para se «Pensar (e)M Grande» ou «Pensar a Marinha Grande».

Quer pelo histórico desta questão, que nunca foi verdadeiramente sanada, nem política nem socialmente, quer pelo lugar central que o mercado municipal sempre teve (e deveria continuar a ter) como âncora do Centro Tradicional, a (não) discussão pública (que tantos reclamaram!) e a decisão final exarada em reunião de Câmara mais não foi que a aplicação de um «placebo» ou de um «penso-rápido» numa ferida que está demasiado exposta para poder ser assim sanada.

Quem queira citar a afirmação da Carta Estratégica que dá mote a este texto deverá também saber ler e interpretar a seguinte nota explicativa:

«A boa governança territorial visa gerir dinâmicas espaciais mediante a discussão das consequências territoriais de várias políticas, planeadas pelos atores do sector público e do privado. A meta é negociar um conjunto de objetivos comummente acordados, bem como um enquadramento de partilha de responsabilidades, mediante a utilização de estratégias e de políticas de desenvolvimento territorial.»

Precisamente quando pretensamente se anuncia uma rutura com as formas de governança tradicional e introdução de boas práticas, que sejam também inovadoras, não deixa de parecer estranho que nesta questão não se tenha ido mais longe, decidindo-se sem qualquer contextualização estratégica para o desenvolvimento territorial!

Precisamente quando pretensamente se anuncia uma governação numa lógica territorial não deixa de parecer estranho que se olhe para os problemas de uma forma isolada, localizada, sem atender a um diagnóstico integral das carências e fragilidades do Território, delineando as necessárias estratégias de investimento público para dar resposta às mesmas.

Nesta medida, pensar o Mercado Municipal sem pensar em simultâneo outros equipamentos (interface de transportes, piscinas municipais, pavilhão multiusos, loja do cidadão/balcão único atendimento, etc.) ou espaços sociais vitais, como o centro tradicional, é continuar a apostar, afinal, numa forma de governança tradicional, é adiar a integração de estratégias inovadoras e integradas!

Não é Pensar (e)M Grande!
Não é Pensar a Marinha Grande!

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