Marinha Grande e a sua identidade

Falar de identidade de um povo, de uma região, é geralmente associado a um conjunto de sentimentos que fazem com que cada individuo se sinta como parte integrante de uma sociedade ou nação. Um elemento essencial deste sentimento de identidade é, muitas vezes, associado ao convívio social que promove a sua assimilação e o reforça.

Ao longo da sua história, a Marinha Grande evidenciou traços de uma identidade bastante marcante. Recordemos, a título de exemplo, o 18 de janeiro de 1934, a quinta-feira da ascensão, as suas lutas e as suas reivindicações por melhores condições de trabalho, antes e depois do 25 de abril, as madeiras do pinhal do Rei, o vidro, os moldes, os plásticos e muitas outras coisas. Todos estes elementos têm contribuído para a criação da sua identidade.

A identidade de um povo não se alimenta apenas de economia, mas também de memórias culturais que resultam do convívio social, que se implementam e que reforçam o sentimento de identidade.

Como assinalou, e bem, José Nobre num texto que publicou neste Blog, a Câmara Municipal abandonou a realização da Bienal de Artes Plásticas cuja última edição remonta a outubro de 2010. Era um evento importante dado que “mantinha a cidade no circuito das artes (…) alargava os nossos horizontes como público, como artistas ou como organizadores. Validava-nos como uma cidade ativa”.

Outro evento, ligado à economia, A Semana do Design que servia de promoção do empreendedorismo e pretendia ainda cativar toda a comunidade de forma a reunir a indústria, a cultura, a história e as suas gentes,  que se realizou em 2011 e em outubro de 2014, desapareceu.

É irónico o abandono do evento A Semana do Design que tinha como objetivos estimular a inovação, a criatividade, a tecnologia, a competitividade e o desenvolvimento de produto, quando, neste momento, o governo central reforçou o investimento no design, valorizando-o como grande promotor do poder económico (Expresso, 4/03/2017). Uma das iniciativas prioritárias deste projeto conta com o apoio do centro de engenharia e desenvolvimento de produto sediado em Matosinhos. Temos tudo neste concelho para integrar estas iniciativas. Falta-nos capacidade de intervenção e de ação.

Vivemos de eventos avulsos que a memória esquece com facilidade. Comprar espetáculos a 9 mil € cada (como foram os de Pedro Abrunhosa, Luísa Sobral, Rita Redshoses e outros mais) para 250 pessoas, festas da cidade que custam milhares, a última das quais mais de 200 mil euros, cujos artistas são sempre ao gosto dos promotores de eventos, não acrescentam absolutamente nada à cultura marinhense e muito menos ajudam ao reforço da sua identidade.

E por que não realizar festas da cidade temáticas que rapidamente se poderiam tornar uma referência para o concelho e a nível nacional? Temáticas ligadas aos irmãos Stephens, Marquês de Pombal, artesanato tradicional, gastronomia, …

Não há vontade política, não há capacidade nem ambição por parte dos executivos da Câmara Municipal de pensar, de executar projetos que perdurem no tempo e reforcem a memória e o sentimento de pertença.

 

 

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