TPC: Que impacto na vida dos alunos e das famílias?

“O essencial faz-se na aula …

Ou deveria fazer-se na aula!” (Meirieu, 2002)

Há muito que o tema Trabalhos para Casa (TPC) me preocupa e me tem levado a alguma reflexão perante as queixas de pais com quem contacto. Por exemplo, esta quinta-feira, aquando da minha ida ao judo levar o meu neto, ouvi o desabafo magoado de uma mãe. Dizia-me ela: “é inacreditável que o meu filho traga TPC durante os cinco dias da semana e ainda ao fim de semana. Nem é muitas vezes pela quantidade, mas sim pela sua falta de nexo. Esta semana, fez fichas de avaliação na terça, quarta e quinta-feira. Foi um stress, na terça-feira nem quis vir ao judo. Hoje, acabaram as fichas e os TPC continuaram. Gostava de um dia ouvir o meu filho dizer «Mãe, hoje não trago TPC. A professora disse para brincarmos e sermos felizes» ”.

Uma coisa estou certa, muitos pais andam desesperados perante a carga de TPC diários que os filhos levam para casa, embora também conheça outros que são apologistas dos mesmos. Este assunto não é novo e muitos autores de referência se têm debruçado sobre ele. Em Portugal, são conhecidas as posições do psicólogo e professor universitário Eduardo Sá, bem como do pediatra Mário Cordeiro, que, de um modo geral, são de opinião que os TPC pouco adiantam ao desempenho escolar dos alunos.

Segundo refere o estudo “aQeduto” realizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e em colaboração com o Conselho Nacional de Educação, mais TPC não significa, necessariamente, maior sucesso escolar. Este estudo indica que os alunos portugueses gastam, em média, 5 horas por semana a fazer os seus TPC, enquanto os finlandeses gastam 3 horas e os espanhóis 6 horas. A média mais alta regista-se na Polónia e na Irlanda. O que é interessante verificar é que não são nos países em que os alunos gastam mais tempo a fazer TPC que é visível melhores resultados em testes internacionais, por exemplo, no Pisa, um Programa Internacional de Avaliação de Alunos. Nestes testes, a Finlândia tem uma pontuação de 519 pontos, enquanto a Espanha tem 484, Portugal subiu no ranking e obteve 501 pontos, em consonância com a média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico que engloba 34 países), 500 pontos. Singapura é o país que melhores resultados obteve, 564 pontos.

Recentemente, num artigo no Expresso (11-02-2017) um reconhecido professor espanhol, César Bona, considerava que os TPC são “o braço invasivo da escola e dos seus piores vícios em casa. É o absoluto esquecimento da infância”. Referia ainda neste artigo que os TPC impedem que as crianças façam coisas com os pais, mexem com o tempo interno das famílias, carregam os laços familiares de tensão e de uma sensação de perda de oportunidade.

Na minha perspetiva, os TPC, tal como os que são enviados para os alunos realizarem em casa, não melhoram o desempenho escolar dos alunos, nem proporcionam que os alunos ganhem mais autonomia. Os TPC só poderão ter algum contributo na vida dos alunos se, entretanto, houver uma mudança na sua conceção. Não para repetir o que fazem depois de 9 horas de escola, 7 em horário letivo, mas TPC que sejam um desafio para pais e filhos colaborarem.

Por exemplo, ao fim de semana, decorar uma poesia que a professora envia ou uma escolhida pelos pais, para ler na segunda-feira ao começar a aula; ler um livro de histórias e fazer a sua apresentação à turma; levar para a escola caixas que tenham em casa, abri-las, ver as suas planificações, as faces, as arestas, os vértices. Observar quantos gramas têm os pacotes de manteiga que guardam no frigorífico, as caixas de cereais e outros produtos, e comparar com as dos colegas; pesar e medir a família e construir gráficos na escola; levar a planta da sua casa, a localização da sua rua, a posição da escola, observar as ruas paralelas e perpendiculares; procurar informação sobre um trabalho a realizar na sala de aula; ler um jornal e retirar uma notícia que lhe agradou e partilhá-la na sala de aula com os colegas; observar números num jornal e interpretá-los no seu contexto… Tanta coisa que se podia trabalhar como TPC e que entusiasmaria pais e filhos!

Sabendo nós que mais de 60% do que os alunos aprendem hoje é fora da escola, era tempo de repensar o verdadeiro papel dos TPC na sua vida e o seu contributo para o seu desempenho escolar e gosto pela escola.

Como diz o professor César Bona, “o tempo voa, a infância passa num instante. Se as crianças passarem as tardes a trabalhar, vão perder coisas verdadeiramente importantes”.

Gostava muito que os meus netos tivessem tempo para viver a sua infância, tivessem oportunidade de levar verdadeiros TPC para casa e pudessem usufruir das tardes que passam comigo na pesquisa de tudo o que enunciei. Pudessem, se possível, ter direito de apenas BRINCAR…

 

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6 respostas a TPC: Que impacto na vida dos alunos e das famílias?

  1. João Fernandes diz:

    TPC
    Na qualidade de pai, poderia concordar com a idéia de que os TPC não são benéficos no contexto familiar e no tempo que “roubam” aos alunos.
    Contudo, deveremos equacioar a génese dessas tarefas.
    Será que os professores que exigem TPC o fazem por sadismo, por incompetência, por insensibilidade ou fazem-no “porque sim”?
    Será que os Programas para serem cumpridos dispensam os TPC?
    Será que os curriculos estão ajustados aos tempos?
    Será que os alunos durante as aulas estão tranquilos, disciplinados, atentos e interessados?
    Será que as famílias, nos dias em que os filhos não têm TPC, ocupam os tempos livres a conversar, a partilhar experiências conjuntas, a viajar, a declamar poesia, a ouvir música?
    Será que, caso não tenham TPC, os pais não colocam os meninos noutra atividade além do balet, do inglês, da natação, do ténis, da escola de guitarra, da catequese, do escutismo, etc.?
    Será que a Escola, tal qual é, cumpre melhor a sua função se os alunos “desligarem” totalmente após a campainha tocar no final das aulas?
    Será que o tempo com o smartphone, com o tablet, com o computador e com a televisão,
    será o mesmo, caso não haja TPC?
    Provavelmente quem se indigna com os TPC, sente que a vida dos alunos e dos pais seria mais facilitada, restar-lhes-ia mais tempo, mais descanso, mais proximidade entre uns e outros caso não existissem TPC.
    Provavelmente, alunos sem trabalhos para casa, serão alunos mais disponíveis, com mais tempo… para novas atividades fora de casa e para mais horas na frente de um qualquer ecrân a jogar ou a partilhar com os amigos.
    Questionem os curriculos escolares, os tempos letivos, a formação e a motivação de muitos professores, questionem a educação que todos damos aos nossos filhos e o que eles fazem dela na escola, questionem sobre o papel da escola no seio da sociedade.
    Os TPC são apenas um pequeníssimo elo da enorme corrente que é a formação escolar dos nossos filhos.

  2. Elvira Ferreira diz:

    Caro João Fernandes
    Eu não disse que os TPC não são benéficos. O tipo de TPC passados para casa para os alunos fazerem é que, para mim, deixam muito a desejar. Desde logo porque 24 alunos levam os mesmos TPC. Será que todos esses alunos precisam dos mesmos TPC? Não devemos emitir juízos de valor sobre o que os pais fazem ou não com os filhos quando não têm TPC. O que eu sei, contado por muitos pais, é que há dias que os TPC são um ponto de discórdia em casa. Depois de 9 horas de escola, depois de ir ao judo 2 vezes por semana e chegar a casa às 20h e 15m e ainda haver TPC, é, no mínimo, exagerado na vida de qualquer aluno. Julgo que qualquer pai hoje, tem em atenção o tempo que os filhos devem passar diante de um computador ou tablet. Se não têm, deviam ter. Concordo consigo sobre algumas coisas que nos deviam levar a muito questionamento. Subscrevo todas, o que não impede que considere que o tipo de TPC devia ser diferente. Os exemplos que dei, todos eles foram feitos pelos meus alunos quando dava aulas. Como tudo na vida, os TPC deviam ser enviados com conta, peso e medida..
    Obrigada pela sua atenção e comentário

  3. João Fernandes diz:

    Ilma sra professora
    Eu também não disse que a sra disse.
    Volto a salientar que a preocupação de alguns pais com os TPC apesar de legítima, é reveladora de um certo tipo de consciência limitada sobre o que “fazem os seus filhos na escola”. Os TPC são o que os pais olham diariamente, o que eles não veem é todo o sistema escolar que está antes dos ditos TPC. Não veem e, em muitos casos, não querem ver o que os seus filhos aprendem ou deveriam aprender, o que fazem durante o período letivo, como é o seu comportamento na sala de aula e fora dela.
    Julgo que todos deveremos refletir e agir sobre o que é a Escola, como funciona, com que pessoas, com que conteúdos.
    E agir. Agir diariamente. Muitos dos pais que se queixam dos TPC tão pouco se interessam sobre o que os seus filhos aprenderam nesse dia sobre matemática, português, ciências, artes ou cidadania. Sabem que “isso” é tarefa e responsabilidade da escola, da mesma escola que sacrifica os alunos com TPC.

  4. TPC’S …uma rica “marmelada”!

    No meu tempo também os havia, mas nada comparado com o que as crianças trazem hoje em dia para fazer em casa, naquelas mochilas (até parece que andam a fazer provas para admissão às tropas especiais), e parece que o mundo vai acabar!

    São, definitivamente…um exagero. Ponto!

    As crianças são as primeiras a entrar no “trabalho” e as ultimas a sair! Reparem, os pais deixam-nas nos estabelecimentos de ensino, e vão buscá-las depois de saírem. É claro que não aplica a todas… e os pais quando chegam nem querem ouvir falar de trabalho! Em contrapartida “bombardeiam” as crianças com perguntas da escola.
    Como correu o dia; o que prenderam hoje; quem se portou mal; quem foi o melhor aluno; se foi chamado ao quadro; o que almoçou etc., etc.,,,,etc!
    Agora pergunto eu! E se os vossos filhos, lhe fizessem todos os dias as mesmas perguntas sobre o emprego? E há quem pergunte, e depois ouve resposta do género…ah e tal o pai está cansado; agora não; tens que ir dormir etc., etc.
    Falou-se aqui também das actividades extra-curriculares que em certos casos são verdadeiro exagero, mas diferente da escola! O problema é depois têm que fazer os TPC! Queixa-mo-nos que passam demasiado nos “tablets, computadores etc. Lembro-me perfeitamente que à umas décadas atrás, estar a almoçar ou a jantar e estarem pessoas com o jornal em cima da mesa. E de estar a estudar com os livros do Pato Donald, do Mandrake, de “cowboys”, etc, dentro dos livros!
    Cada geração tem um modo de viver. Diferente!
    Não lhes peçam é que andem mais à… frente.
    Deixem as crianças viver o seu tempo, não as façam ultrapassar etapas.

    Crianças de Portugal vivam o momento!

    (ACJ pai de três filhas)

  5. Elvira Ferreira diz:

    Caro João Fernandes
    Inteiramente de acordo.. Muitos não o fazem por falta de conhecimentos, outros porque têm medo…
    Eu por acaso preocupo-me em relação ao meu neto mais velho… Sempre que o vou buscar, pergunto-lhe o que fez na escola. Como professora que fui durante mais de 40 anos, devo ser reservada em relação à maneira como aprende e o que aprende. Uma coisa eu tenho a certeza: A qualidade dos conhecimentos do professor influencia muito a forma e os conteúdos que o aluno aprende. Toda a investigação diz isso.
    Mais uma vez, agradeço os seus comentários e a sua reflexão que ajuda muito neste debate que deveria ser mais participado.

  6. Elvira Ferreira diz:

    Caro António Carlos

    Isso mesmo. Deixem as crianças viverem o seu tempo, o tempo presente. A melhoria do desempenho dos alunos não tem a ver com os TPC que os alunos levam para casa. Um célebre psicólogo americano (Dewey, 1900) dizia: ensinem às crianças o que elas precisam no presente e não a pensar que têm de aprender muito por causa do que vem a seguir… O que se constata hoje é que temos alunos do século XXI, professores do século XX e currículos do século XVIII… Isto explica muita coisa.
    Obrigada pelo seu comentário.

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