Nós, os beirões

Na passada 6ª feira à noite estive na minha terra, Mação, a assistir no (magnifico) Auditório Municipal, com casa cheia, a mais uma “À CONVERSA COM”, ciclo de conferências sobre os mais variados temas, desta vez com o Vereador da CMM António Louro, Eng.º Florestal, que falou aos presentes sobre a floresta do concelho, do minifúndio e das dificuldades sentidas para o seu fomento, valorização e preservação.

O concelho de Mação tem 40 mil ha, pouco mais do dobro do concelho da Marinha Grande, mas ali residem somente 7 mil habitantes, distribuídos por 6 freguesias, dos quais 40% têm mais de 65 anos.

O relevo é do tipo montanhoso embora o ponto mais elevado não ultrapasse os 600 m de altitude, os vales onde antigamente se fazia agricultura, quando residiam no concelho 28 mil habitantes, há 80 anos atrás, estão agora com mato e floresta, fazendo com que, quando ocorrem incêndios, frequentemente provenientes dos territórios vizinhos, encontrem ali a força suficiente para rapidamente se tornarem incontroláveis, desde que não sejam logo “mortos à nascença”.

No concelho de Mação existe uma excelente rede de apoio social, produtos agrários locais de qualidade, a Escola Secundária está na primeira metade no ranking nacional, há uma piscina ao ar livre e outra coberta, esta curiosamente equipada com cadeiras instaladas por um ilustre Marinhense, mas a maior parte do seu território rural está desaproveitada, sendo ciclicamente varrida por violentos incêndios florestais, por não haver as faixas de descontinuidade criadas pela agricultura de outrora, nem outras mais atuais em sua substituição.

Na zona industrial, onde se transforma 80% do presunto consumido no país, o custo do terreno é simbólico, mas não o suficiente para que novas indústrias ali se instalem.

Ou seja, acontece em Mação aquilo que se passa um pouco em todo o interior do nosso país, em especial a norte do rio Tejo, onde os espaços rurais do minifúndio estão ao abandono, sem qualquer tipo de gestão, dados os fogos que se vão periodicamente repetindo.

Perguntar-me-ão: que tem este assunto a ver com o dia-a-dia dos Marinhenses?

A verdade é que somos um país uno e a situação descrita é uma matéria de interesse vital para todos nós, pois trata-se de uma parte significativa de território que terá de ser revitalizada com programas bem delineados e apropriados, com custos, urgindo tomar medidas e encontrar soluções de viabilização desses espaços, atrair pessoas e investimentos, pois é uma parte do país não pode, nem deve, estar subaproveitada, muito menos desperdiçada, dadas as potencialidades intrínsecas e muito variadas de que dispõe e de que todos iremos beneficiar.

Tem estado em discussão pública a denominada “reforma da floresta”, conjunto de 12 diplomas para o ordenamento do território e a redução de incêndios, visando minimizar alguns dos problemas derivados do abandono dos terrenos e do desaparecimento continuado da área de pinhal, a nossa principal (e única) espécie madeireira, que em 20 anos perdeu 300 mil ha.

Também no Alentejo a desertificação humana, conforme mapa junto, é um factor de forte preocupação.

Nós, os beirões, os alentejanos, os transmontanos e os ribatejanos, fomos levados a procurar melhores condições de vida, deslocámo-nos para o litoral (bastantes para a Marinha Grande), outros para o estrangeiro, em grande número e temos agora um país com graves assimetrias e disfuncionalidades.

Até quando?

Fontes/Entidades: INE, PORDATA

 

 

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2 respostas a Nós, os beirões

  1. Um beirão que sempre que possível, volta á terra e que nunca rejeitou as suas origens.
    Relativamente ao assunto deixe-me que lhe diga que atarefa de “repovoar” o interior é, e será, uma batalha …perdida! Não estou a ser negativo, mas é uma evidência! Por muito que se faça, e deve-se continuar a fazer, é uma “batalha” perdida.

    A maior parte da população mundial vive junto ao mar, ou perto dos rios! É uma evidência…!

    Será muito difícil pois, levar os jovens para o interior e conseguir que aí se fixem!

    É assim que penso em grande!

  2. Octávio diz:

    Carlos
    O rio Tejo passa em Mação e não passa em Madrid!

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