Bienal de Artes Plásticas, volta que estas perdoada!

Sendo a escola o primeiro espaço formal onde se dá o desenvolvimento de cidadãos, nada melhor do que ela para  o contacto sistematizado com o universo artístico e suas linguagens: artes visuais, teatro, dança, música e literatura. Contudo, o que se percebe é que o ensino da arte está relegado ao segundo plano, ou é encarado como mera atividade de lazer e recreação.

Acredito que é através do espaço educativo que se pode efetivamente dar uma contribuição no sentido de possibilitar o acesso à arte a uma grande maioria de crianças e jovens.

Aceitar que o fazer artístico e a fruição estética contribuem para o desenvolvimento de crianças e de jovens é ter a certeza da capacidade que eles têm de ampliar o seu potencial cognitivo e assim conceber e olhar o mundo de modo diferente. Esta deverá ser a postura dos professores, a fim de que a prática pedagógica tenha coerência, possibilitando ao aluno conhecer o seu repertório cultural e entrar em contacto com outras referências, sem que haja a imposição de uma forma de conhecimento sobre outra, sem dicotomia entre reflexão e prática.

António Damásio na Conferência Mundial sobre Educação Artística da UNESCO em Lisboa (6-9 de Março de 2006) referiu que “a ciência e a matemática são muito importantes, mas a arte e as humanidades são imprescindíveis à imaginação e ao pensamento intuitivo que estão por trás do que é novo”. (pensamento convergente/pensamento divergente)

Nessa mesma conferência Ken Robinson, defendeu que a imaginação é tão importante para os alunos do século XXI como os números e as letras, apesar de as artes estarem quase sempre no fim da lista de prioridades do ensino escolar público.

As artes devem ser vistas como motor de transformação do sistema de ensino. “Gastamos muito tempo e energia a tentar fazer com que o atual sistema de ensino assimile as artes, quando devíamos era pensar em formas de criar, através delas, um sistema novo.” Nas artes visuais, pedagogias refletivas e críticas e novos meios de produção artística oferecem aos estudantes oportunidades para explorar os seus mundos visuais multiculturais e multi-tecnológicos. A educação para a compreensão da cultura visual oferece aos jovens meios para questionarem o fluxo de imagens transmitidas diariamente pelos meios mediáticos, ajudando-os a compreender o seu papel de público recetor e de produtor de significados.

A arte é cultura. É fruto de sujeitos que expressam a sua visão de mundo, visão esta que está atrelada a conceções, princípios, espaços, tempos, vivências. O contacto com a arte de diversos períodos históricos e de outros lugares e regiões amplia a visão de mundo, enriquece o repertório estético, favorece a criação de vínculos com realidades diversas e assim propicia uma cultura de tolerância, de valorização da diversidade, de respeito mútuo, podendo contribuir para uma cultura de paz. O conhecimento da arte produzida na sua própria cultura permite ao sujeito conhecer-se a si mesmo, percebendo-se como ser histórico que mantém ligações com o passado, que é capaz de intervir modificando o futuro, que toma consciência de suas conceções e ideias, podendo escolher criticamente os seus princípios, superar preconceitos e agir socialmente para transformar a sociedade da qual faz parte.

Neste sentido, parece-me incompreensível o porquê da não realização da Bienal de Artes Plásticas, senão me falha a memória a última foi em outubro de 2010.

A Bienal da Marinha Grande era importante na medida em que mantinha a cidade  no circuito nacional das artes, obrigava a reflexão sobre a nossa produção artística, e alargava os nossos horizontes seja como público, como artistas ou como organizadores. E para mim o mais importante é que nos validava como uma cidade culturalmente ativa.

As exposições de arte configuram-se como o espaço de ligação entre artistas e público e, de maneira mais ampla, entre novas proposições visuais conceções de arte e a sociedade. Exposições representam o ‘locus’ entre as novas proposições artísticas e o público. Podem ser inovadoras, inspiradoras e conduzir o visitante à reflexão, proporcionando ótimos momentos de prazer e aprendizagem.

Se bem que noutros moldes, seria bom que a Bienal voltasse à Marinha e fosse de encontro ao público em geral. Volta que estas perdoada! Haja vontade…principalmente política! Porque vontade criativa, organizacional e artística haverá de sobra!

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