Política de terra queimada versus política virada para século XXI

Desde há perto de doze anos que a governação do concelho da Marinha Grande tem vivido uma situação atípica. Atípica porque se elegem presidentes de câmara que por variadas razões, quer políticas, quer pessoais ou de intriga, têm sido “obrigados” a renunciar aos seus mandatos para os quais foram eleitos, dando lugar a pessoas respeitadas, mas que não se sujeitaram ao sufrágio dos eleitores. Esta entrada e saída de executivos municipais tem vindo a afetar o desenvolvimento do concelho. Pegam na governação a meio e, embora não se duvide que tentem fazer o seu melhor, têm-lhes faltado audácia, uma visão ampla e abrangente tendo em conta a definição clara de um plano estratégico virado para o século XXI.

Esta introdução vem a propósito do recente chumbo, pelos vereadores da oposição, do Programa de Apoio ao Investimento Industrial apresentado pelo Executivo PS. É hoje impensável um Executivo apresentar um Programa pensando apenas no tecido industrial. É um Programa redutor, obsoleto e inadequado ao desenvolvimento económico da Marinha Grande. Os dados relativos a 2011, último censo, apontam que a taxa de emprego relativa ao setor secundário (indústria de moldes e plástico) corresponde a 47%, com 347 empresas e no setor terciário (comércio e atividades administrativas e serviços) a 52%, 1147 empresas.

A realidade da Marinha Grande mudou, e muito, nas últimas décadas. Há muito que a nossa referência deixou de ser apenas a indústria. Ignorar este facto é não conhecer o que se passa no concelho e, ainda pior, não conhecer o que outros concelhos têm feito com muito sucesso nos últimos anos, apostando, para além da indústria, em novas iniciativas de negócios que estimulam a fixação de população, a criação de riqueza e a criação ou aumento de postos de trabalho.

É hoje imprescindível alargar as áreas de negócio que contribuam para uma maior diversidade do tecido empresarial e, por isso, extensivo a todas as áreas, setores de atividade e aberto a empresários em nome individual ou pessoas coletivas. Um Programa que não atenda apenas ao número de postos de trabalho a criar, como o que foi apresentado pelo Executivo PS, mas que atenda à diversidade das áreas de negócio e que discrimine positivamente vários fatores, nomeadamente, a qualidade de vínculo laboral dos postos de trabalho criados; redução do desemprego no concelho; a criação efetiva de novos postos de trabalho (em detrimento da transferência de postos de trabalho); a criação de novos postos de trabalho jovem; diversificação das atividades concelhias; a investigação; a atração de empreendedores de outros concelhos e países; e o aumento populacional do concelho.

Exemplos de Programas de Incentivos ao Investimento com sucesso não faltam neste país, por exemplo, Braga, Guimarães, Mondim de Basto, Manteigas, Paredes, Amares e, como vimos plasmado em duas páginas do Expresso no passado dia 21 de janeiro, o Município do Fundão, aliás um município geminado com a Marinha Grande e com o qual muito podíamos e devíamos aprender. O município do Fundão tem um Projeto ambicioso e de sucesso que foi elaborado para dar resposta no combate ao desemprego, às falências e à desertificação. Apostou em várias áreas e nos mais variados setores, com incidência na inovação tecnológica de ponta, por exemplo, a Altran emprega perto de 300 engenheiros informáticos, nos setores mais tradicionais, no têxtil, na agropecuária, nos laticínios e na construção civil. Em três anos, conseguiram um investimento de €140 milhões, a criação de 1300 empregos e um aumento de €3,2 milhões mensais na economia local devido ao aumento de novos habitantes que entretanto se deslocaram de armas e bagagens para o Fundão.

Efetivamente, este sucesso não foi alcançado de forma fácil. Como afirma o seu Presidente de Câmara Paulo Fernandes “Durante quase três anos andei de mala na mão a bater à porta das empresas – mais de 300 – associações empresariais e outras entidades públicas e privadas”. Esta ideia evidencia claramente um trabalho de muita diplomacia e um presidente como verdadeiro empreendedor.

A Marinha Grande tem potencial para desenvolver projetos desta envergadura. Tem empreendedores de excelência, qualidade profissional dos seus trabalhadores, mas falta-lhe uma Câmara que estimule e potencie a sua liderança para que o concelho beneficie das melhores condições para o empreendedorismo e a criação de emprego.

Muito se consegue quando se pensa num plano estratégico a longo prazo e uma visão de futuro que pode, à partida, ser considerada utópica, mas quando um Homem sonha o Mundo pula e avança. Muito se consegue com espírito de missão de serviço público e quando se traçam linhas de rumo tendo em conta a realidade e os desafios do século XXI.

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4 respostas a Política de terra queimada versus política virada para século XXI

  1. João Fernandes diz:

    Boa tarde Sra Professora

    Quero lembrar que a Marinha Grande não é um município “germinado” com a cidade do Fundão, é sim, GEMINADO.

  2. Elvira Ferreira diz:

    Tem razão caro João Fernandes. O computador assumiu e é erro. A palavra correta é – geminada . Obrigada pela atenção. Irei Corrigir.

  3. António Silva diz:

    Cara Professora Elvira,
    Concordo consigo, mas os Programas de Incentivos para captar a apoiar investidores são apenas uma ferramenta, embora importante, com um impacto reduzido.
    É preciso que existam um conjunto de acções de promoção do município que sejam coerentes e realizadas de forma sistemática.
    Por exemplo, a último slogan utilizado era, se não estou em erro, Engenharia e Design. Logo à partida surgiu de forma avulsa, depois não foi acolhido pelos nossos munícipes (nem mesmo os empresários) como elemento identificador do concelho. O próprio município nunca o utilizou de forma sistemática e finalmente tínhamos um pseudo-programa de apoio ao Investimento que excluía estas actividades.

    Acresce que temos umas pessoas que falam de democracia, mas que não entendem estas incoerências e criticam opções alternativas de eleitos, chamando-lhe de terra queimada.

  4. Elvira Ferreira diz:

    Caro António Silva estamos de acordo. O que se faz é avulso e não tem as consequências que deveria ter. Não têm impacto porque se diluem no tempo. Não há rotinas criadas de iniciativas e, como tal, não contribuem positivamente para que a Marinha Grande seja uma referência dessas iniciativas. Na minha perspetiva, tudo acontece muito acaso, sem planificação, sem um plano estratégico global, sem visão do que se pretende para o Concelho. Por exemplo, Leiria tem um plano na área da educação para todo o ano letivo registado num desdobrável e que distribuiu gratuitamente às centenas. Eu tenho um exemplar e acho-o muito bom.
    Peço desculpa de não ter respondido há mais tempo. Gosto da discussão e de responder aos comentários.

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