O 18 de Janeiro de 1934 na imprensa regional

O Mensageiro, A Voz do Domingo, o Região de Leiria e mais tarde o Jornal da Marinha Grande não se atrevem a fazer frente a Salazar e ao seu regime até 1974. Pelo contrário. A censura prévia também não o permitiria, pois cortava tudo o que não servisse os interesses da ditadura. Este foi, de facto, um período em que o jornalismo era uma profissão muito prejudicada pelo censor e, claro, pelo medo de encerramento dos jornais.

Jornalismo de investigação é coisa que não existe praticamente nos jornais de província durante a ditadura. Há, contudo, um lado interessante nos periódicos dessa época. Sobretudo O Mensageiro teve alguma liberdade para escrever sobre o 18 de Janeiro de 1934, não só relativamente ao que aconteceu naquela madrugada e manhã, mas sobretudo sobre os pedidos de clemência que o Bispo de Leiria endereçou ao Governo e ao Presidente da República. Mas não só. O jornal relata os acontecimentos ocorridos na vila marinhense.

Se excetuarmos o que se noticiou nas edições logo após a ação insurrecional e uma ou outra peça sobre os pedidos de D. José Alves Correia da Silva, o movimento dos operários da Marinha Grande de 1934 sofreu uma espécie de «apagão» ao longo de quarenta anos, recordado raramente pelo Avante, na clandestinidade, renascendo apenas em janeiro de 1975, em grande, com o comício de Álvaro Cunhal na Marinha Grande.

De então para cá o 18 de Janeiro de 1934 ressuscita das cinzas e começa a ser comemorado anualmente na «capital do vidro», com o jornal O Correio a dar grande destaque à efeméride. O semanário fundado pelo advogado José Henriques Vareda idolatra o movimento, dá-lhe páginas e páginas e contribui decisivamente para que entre na história da Marinha Grande, do operariado, do sindicalismo e, claro, do PCP.

Tem um papel determinante na amplificação do(s) mito(s) em redor da ação insurrecional, talhando as notícias à medida dos interesses que servia. Recorde-se que o movimento tinha como objetivo a tomada do poder pela classe operária, seguindo o exemplo da Revolução Russa, colocando fim à sociedade considerada exploratória pelos comunistas.

O Jornal da Marinha Grande pouco destaque dá ao acontecimento, aludindo ao movimento de forma quase sempre sucinta, ao contrário do seu concorrente direto. Fica a dúvida se o JMG opta por não dar destaque ao movimento por convicção ou por falta de tempo – ou vontade – do responsável do jornal. Pensamos que as duas razões poderão ter contribuído para que o jornal fizesse esporádicas alusões ao movimento, pois tinha que as fazer para satisfazer os seus leitores, muitos deles afetos a uma corrente de esquerda muito enraizada na localidade.

Também os jornais da igreja e o próprio Região de Leiria não fizeram grandes referências ao acontecimento entre abril de 1974 e 1984. Se os primeiros podem ter omitido a ação por questões de natureza ideológica, já o jornal com maior audiência no distrito pode ter passado ao lado da efeméride devido à dificuldade de ter gente no terreno capaz de fazer chegar a informação à redação.

Nunca é demais lembrar que Leiria e Marinha Grande estavam separadas por “longos” quilómetros há quarenta anos atrás, pois a mobilidade e as acessibilidades eram bem diferentes do que as que existem atualmente, já para não falar da dimensão tecnológica que, atualmente, faz com que não existam fronteiras entre os dois municípios.

Mas apesar desta proximidade geográfica, há ainda um grande distanciamento entre as duas localidades, que têm tudo para partilhar projetos comuns mas que rivalidades antigas e presentes faz com que não se concretizem, com perdas evidentes para as populações. Assim, é de prever que os dois «quintais» continuem a ter gestões unilaterais, quando poderiam apontar, por exemplo, para a criação de um sistema de transportes entre as suas cidades e outros projetos de interesse comum.

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Uma resposta a O 18 de Janeiro de 1934 na imprensa regional

  1. José Manuel diz:

    Até parece que agora há jornalismo de investigação. Se há, não é no seu.

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