O 18 de Janeiro é de todos Nós!

Sou filho de um operário vidreiro.
O meu pai chegou à Marinha Grande em 1971 para trabalhar na fábrica (Produtora, CIVE, Barbosa&Almeida) que fez parte da sua vida durante mais de 30 anos, 365 dias por ano (porque trabalhava por turnos, sem fins-de-semana ou feriados para descansar, apenas com os descansos entre turnos e as férias).

O meu pai foi também sindicalizado.
Que me recorde, fez greve apenas uma vez, na década de oitenta, durante aquela crise maior que fez erguer as bandeiras negras da fome!

Como o meu pai haverá muitos outros Pais. Homens e Mulheres, operários do sector vidreiro, que, antes e depois do 25 de Abril de 1974, sofreram as mais duras condições de trabalho, que as suportaram para poder ter na mesa o pão para as suas famílias.
Nessa altura não os distinguia nem as origens, nem a ideologia nem o cartão de militância partidária!

Quero acreditar que em 1934 o Movimento Operário liderado por bravos homens da Marinha Grande não se deveu apenas a questões partidárias!
Quero acreditar que aqueles Homens, naquele dia 18 de Janeiro, se levantaram para defender os seus Direitos, e os Direitos de todos os seus Concidadãos (independentemente da sua raça, credo ou ideologia) a uma vida Livre, a uma vida Justa, a uma vida Digna!

Quero acreditar que aqueles Homens, independentemente de posteriormente se terem tornado ou não militantes ou simpatizantes de um ou outro Partido Político, não se reveriam na forma como hoje os homenageamos: com divisão, com discórdia, com cinismos, com maquievelismos ou caciquismos; não se reveriam nestes fundamentalismos ortodoxos, neste fanatismo ideológico que desagrega em vez de unir! 

Por ser este a data mais marcante da nossa História moderna e contemporânea, apesar da tradição (mas as tradições também se podem mudar!), e por ser esta uma data que nos recorda as nossas raízes, nascidos ao calor dos fornos de vidro, este deveria ser o Dia Festivo da Cidade, o seu Feriado Municipal principal, permitindo que todo o Concelho se unisse para comemorar esta efeméride, ao invés de assistirmos ao que assistimos ano após ano!

As comemorações do 18 de Janeiro deveriam assim ser um evento Concelhio, liderado pela Câmara Municipal em articulação com as demais Entidades e Individualidades que assim entendessem tomar parte nas mesmas!

O ano passado a Câmara Municipal quis honrar o 18 de Janeiro e convidou para isso o STIV a associar-se numa Sessão Solene!
A resposta foi a que se viu.
Numa total deslealdade e falta de respeito para com a Câmara Municipal usaram da mentira para “dar o dito por não dito”, quando depois de numa reunião com a Vereadora terem aceitado a proposta da Câmara, anunciaram um Programa próprio sem integração da Sessão Solene promovida pela Câmara Municipal.

Este ano, não foi muito diferente!
O STIV fez o programa como quis e bem entendeu (sem qualquer originalidade e numa repetição cénica teatral que já pouco diz às novas gerações) e pede dinheiro, sem considerar ouvir sequer as suas propostas, à Câmara Municipal para financiar os seus festejos mais político-partidários que propriamente concelhios!

A Câmara Municipal, e bem!, não deixa de comemorar o 18 de Janeiro!

Fá-lo este ano com um Programa diferente, mas não menos solene!
Porque a solenidade não está no espaço (entre o Salão Nobre e a Resinagem) nem nos discursos ou nos votos de louvor e de homenagem!
A solenidade não está na forma, mas sim no conteúdo!

Assim,
– a apresentação de um excerto de uma peça de teatro «O Menino de Vidro»,
– a Conferência sobre o 18 de Janeiro, com a presença de um histórico resistente ao Estado Novo, Edmundo Pedro, e um historiador local, Hermínio Nunes, e
– a discussão sobre as Políticas Sociais com Carlos Silva, Secretário Geral da UGT
são mais que razões de sobra para considerar este um Programa comemorativo ajustado!

O 18 de Janeiro de 1934 é da Marinha Grande!
O 18 de Janeiro é (também) do meu Pai e de todos os Pais que foram (são) Vidreiros!

 

(Ps. A Casa Museu 18 de Janeiro 1934 está confiada à Confraria da Sopa do Vidreiro e não ao STIV como afirmei na primeira redação deste texto pelo que a mesma foi retificada.)

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