A Música como elemento de um processo formativo

No passado sábado, dia 7 de janeiro, realizou-se, na Casa da Cultura – Teatro Stephens, um concerto de Ano Novo em que fomos brindados pela excelente Orquestra Juvenil da Marinha Grande, reforçada por alguns elementos da Big Band. Esta Orquestra Juvenil vive, essencialmente, com o apoio da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia da Marinha Grande.

A casa estava praticamente cheia. Pais, avós, irmãos, tios e tias, vizinhos, amigos e muita gente anónima que se deslocou para ouvir música tocada por muita gente jovem.

Foi bonita a festa.

A música, tal como a pintura, a poesia e outras artes fazem parte de uma educação pela arte, que é uma educação dos sentidos, nomeadamente, da visão, do ouvido, do tato, que desperta em nós uma enorme sensibilidade e uma relação harmoniosa e habitual com o mundo exterior, pois é através desses sentidos que a consciência social e a ligação ao meio se geram, se desenvolvem e se estruturam (André, 1999). Esta educação pela arte não tem em vista formar artistas na verdadeira aceção da palavra, mas, acima de tudo, formar homens e mulheres e, ao mesmo tempo, fazer parte do processo formativo de cada um ajudando-os no seu desenvolvimento.

Como diz Malraux “ninguém fica a gostar de música pelo facto de lhe explicarem a Nona Sinfonia”. Mas, certamente, será possível cultivar o gosto de modo que este se revele e a beleza surja. Deseja-se que esta beleza esteja ao alcance de todos e não apenas de um grupo restrito de eleitos.

O gosto e a sensibilidade para música desenvolve-se iniciando desde tenra idade o contacto e o envolvimento com a música, para que, gradualmente, a sua beleza se faça sentir. Como afirma José Nobre no texto que escreveu neste blog “desenvolver a literacia artística, nesta caso a musical, é um processo sempre inacabado de aprendizagem e participação que contribui para o desenvolvimento das comunidades e das culturas, num mundo onde o domínio de literacias múltiplas é cada vez mais importante”.

Assim, será desejável e importante refletir em como alargar este conceito a mais jovens marinhenses, iniciando a sua formação musical o mais cedo possível, desde o pré-escolar. É assim necessário pensar num projeto de formação musical mais global, mais abrangente, que em muito pode beneficiar os jovens e o ensino da música deste concelho. Uma das minhas propostas para que a formação musical seja uma realidade ao alcance de um maior número de crianças e jovens passaria por um projeto que envolvesse as coletividades que assim o desejassem e por uma oferta da música como área das AECs, nos agrupamentos que também aderissem a este projeto.

Pelas coletividades, dado que algumas delas estão longe do centro da Marinha e, por esse motivo, dificilmente as crianças e os jovens das diversas localidades podem participar. Pelos agrupamentos, que assim poderiam agarrar uma oportunidade de terem a música como oferta das AECs. É evidente que a estrutura como está implementada neste momento não suporta um projeto desta natureza. Para que tal seja possível, terá de haver professores e maestros a tempo inteiro que dirijam e coordenem o ensino da música nas escolas e nas coletividades e que estes jovens, entretanto formados, possam alimentar, por exemplo, a Orquestra Juvenil e outras iniciativas que estão no terreno ou que possam futuramente vir a ser formadas.

Eu própria, durante oito anos como diretora da escola do 1.º ciclo da Moita e mais tarde na Ordem, juntamente com as minhas colegas, desenvolvemos um projeto que proporcionou aulas de música a todos os alunos em colaboração com as respetivas Associações de Pais. Não sei se algum desses alunos hoje é músico, mas estou certa que, tal como na poesia e na pintura, despertei nos alunos o gosto e a curiosidade por estas artes. Ainda hoje os alunos me falam de Sophia de Mello Breyner, de Miguel Torga, de Eugénio de Andrade como factos marcantes nas suas vidas. Guardo com muito carinho o primeiro quadro que um aluno da Ordem pintou e me ofereceu.

Talvez seja necessário reforçar as verbas de apoio, que neste momento conta com um subsídio da Câmara perto dos 27 mil euros à Junta de Freguesia da Marinha Grande, mas o que não falta é dinheiro nos cofres da Câmara. Se há dinheiro para pagar a artistas avulsos para tocarem para 250 pessoas que custam milhares de euros, se há mais de 200 mil euros para as festas da cidade, devia haver vontade para pôr em prática projetos criativos que dinamizem o concelho e melhorem a qualidade de vida das crianças e jovens que aqui vivem.

O retorno do investimento seria incomparavelmente maior.

Como afirma Silva (2012) “a criança tem em si música espontânea, que só deseja tornar-se sonora. Se se ajudar a criança a expandir a música que tem em si, far-se-á dela um ser não só melhor e mais nobre, mas também mais feliz” (p. 24).

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