A escola como espaço de construção de conhecimento

O grande alarido que existiu à volta dos rankings de escolas, em Portugal, tem, essencialmente, ajudado a reduzir os resultados a números, a ignorar o processo de aprendizagem, a evidenciar que a escola tem como principal opção a hierarquização de disciplinas, enaltecer o privado em detrimento do público, menorizar os professores do público, como se se pudesse comparar o incomparável. A primeira escola do ranking em Portugal é um colégio privado do Porto onde 35 a 40% dos pais têm licenciatura ou mestrado e onde as mães têm, em média, 14 a 15 anos de escolaridade. Por vezes, estes rankings, ou melhor, quem os comenta, dão um pouco a ideia que o ensino bom é no privado e que o ensino mau se encontra no público. Ideia completamente distorcida tendo em conta realidades tão diversas.

O que me interessa verdadeiramente neste texto não são os rankings, embora seja apologista de que alguns resultados obtidos nas escolas da Marinha Grande mereçam um amplo debate. Assim, há aspetos que gostava de realçar, alguns baseados no conceito de escola e de educação de John Dewye, importante filósofo e pedagogo americano que viveu na primeira metade do séc. XX e ainda uma recente conferência proferida do prof. Sampaio da Nóvoa em Évora, dezembro de 2016.

Para John Dewey, a educação não se restringe à transmissão do conhecimento como algo acabado, mas sim no desenvolvimento da capacidade de raciocínio e espírito crítico do aluno. Para ele há quatro princípios fundamentais que norteiam a sua filosofia de educação: (i) a criança com a sua autonomia e a sua diferenciação; (ii) a cooperação, ou seja, partir do princípio que aprendemos uns com os outros, quer como os colegas, quer com os professores, muitas vezes, até mais com colegas, e aprendemos ainda em cooperação com os outros. Enquanto professora, defendi e pratiquei esta ideia durante mais de vinte anos, com alunos trabalhando em grupo, aprendendo em grupo, partilhando conhecimento com todos os grupos, sempre com a minha moderação; (iii) a comunicação, ou seja, pensar que aprender se faz através do diálogo com o outro, de viver com o outro, em que cada um constrói a sua experiência e divulga-a aos outros.

Por fim, (iv) a ideia de criação de conhecimento, em espaços onde os alunos aprendem a criar conhecimento, espaços de descoberta, de tempo para investigar. Será tudo isto possível no modelo escolar vigente em Portugal? Tenho sérias dúvidas que, a curto prazo, tal transformação ocorra, facto que não me impede de pensar que é uma via possível e desejável. É urgente aprofundar o conceito de escola que queremos, em que temos alunos do séc. XXI, uma escola do séc. XIX e currículos do séc. XVIII.

Assim, defendo que o modelo de escola centrado no professor e na transmissão de conhecimento se transforme num modelo

 

 

 

onde o aluno constrói a sua experiência em cooperação com os outros e com o professor, participando, deste modo, na criação do seu próprio conhecimento.

Gostava que todos os alunos deste país não fossem “consumidores” de programas sem nexo para a sua idade, cheios de metas, domínios, subdomínios, objetivos e de centenas de descritores. De um programa de Estudo do Meio completamente anacrónico, que não é revisto desde 1990, desajustado quer à idade dos alunos, quer à realidade de um país em pleno século XXI. Consumidores de páginas e páginas de imensos manuais, de fichas de avaliação e de trabalhos de casa após 8,30 h diárias na escola. As metas não podem ser o limite na aprendizagem. As metas não contém em si o que é estruturante na aprendizagem, quer da Matemática, quer do Português. As metas são um entrave a quem quer ensinar e aprender com compreensão, a quem quer fazer como centro da aprendizagem o aluno, em cooperação, com comunicação e na criação de conhecimento.

Talvez seja um tempo de aprofundar o conceito de escola e de educação neste concelho. (Re) pensar o papel da autarquia na sua relação com os agrupamentos, com o Conselho Municipal de Educação, na apresentação de uma Carta Educativa que trace as grandes linhas do que se pretende com uma educação para todos. Este papel da autarquia deve passar também pela atenção ao que todos os anos consagra para educação no seu orçamento. Por exemplo, para 2017, reservou a quantia de 196 970€, ou seja, 0,9% dos 21 milhões que tem disponíveis. Será esta uma política que os marinhenses consideram aceitável para educação neste concelho?

Na minha perspetiva, a autarquia está completamente divorciada do ensino. Considero que não deve substituir-se aos agrupamentos, deverá sim ter um papel ativo na sua relação com eles, não para intervir, mas para colaborar, propondo iniciativas conjuntas, fazendo parcerias em projetos à imagem do que fazem, com muito sucesso, câmaras vizinhas. Dois exemplos nítidos deste divórcio, a câmara não diligenciou uma abertura condigna do ano letivo, a semana da educação que tanto êxito teve em 2015, deve-se, essencialmente, ao mérito da comunidade educativo e nas dinâmicas conjuntas dos seus agrupamentos. Será que já está a ser organizada a de 2017? Se sim, ainda bem, embora muito se perca com estes timings que a câmara decide. Em ano de eleições tudo vai ser possível, mas a comunidade educativa não vive a estes ritmos nem com estes interesses.

De que vale ter milhões para gastar em Centros Escolares e não discutir com todos os agentes educativos e restante comunidade qual o rumo a seguir? Que escola queremos, que tipo de educação, que projetos se podem proporcionar aos alunos para que possam aprender e sentir prazer em participar na sua própria aprendizagem? Sabemos que os agrupamentos têm realizado muitas iniciativas, algumas delas referidas na comunicação social. Era importante a sua divulgação a toda a comunidade dando assim a conhecer o muito e bem que têm feito. A autarquia deveria ser o parceiro ideal para colaborar na divulgação do que vão fazendo, até porque dinheiro não falta.

Muita coisa está por fazer e não se vislumbra que haja vontade para que o diálogo se inicie. Por um lado, passaram três anos e nada foi feito. Por outro, faltam apenas oito meses e não existe essa dinâmica. Adiar a educação de uma geração é hipotecar o futuro de um povo.

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4 respostas a A escola como espaço de construção de conhecimento

  1. António Silva diz:

    Embora misture várias coisas relativamente ao ensino, parece-me um excelente texto, merecendo a nossa reflexão. Em relação ao sistema e metodologia de ensino, é assunto de âmbito nacional de grande profundidade em que a nossa capacidade de influencia é nula.

    Porém, já no que respeita ao nosso concelho e à afirmação de que ”a autarquia está completamente divorciada do ensino”, é um facto inquestionável.
    Tem havido uma discussão crispada e populista acerca dos centros escolares e é estranho que, pelos textos que conheço dele, o vereador Aurélio Ferreira seja o único membro do executivo a defender que a Carta Educativa é fundamental porque é lá que se deverá expressar a politica educativa do concelho, incluído a requalificação da rede escolar, tal como defende a autora do texto.

  2. Elvira Ferreira diz:

    Obrigada caro António Silva pelo seu comentário. Pelo que refere, vejo que leu o texto com atenção, o que, neste espaço, é algo muito importante, ou seja, a possibilidade de haver interlocutores. Concordo em quase tudo que refere. Esse quase tem a ver com a sua opinião sobre as metodologias de ensino serem de âmbito nacional. Na minha perspetiva, o que é de âmbito nacional são os programas das disciplinas dos vários ciclos. O Ministério da Educação dá grande liberdade para que em cada escola, em cada sala de aula, cada um possa definir as metodologias que quiser, tendo em conta várias premissas, nomeadamente: (i) o que cada escola/agrupamento define qual o seu modelo de ensino, daí a minha abordagem aos modelos de ensino; (ii) o professor e os alunos que tem pela frente; (iii) o que acha importante ensinar e os alunos aprenderem de acordo com a sua idade e nível de desenvolvimento; (iv) o que acha fundamental no desenvolvimento das suas aulas. Tudo isto não tem influência da tutela, mas sim de quem define as políticas locais, nomeadamente, os agrupamentos. Veja, por exemplo, o que é feito pelo agrupamento de Carcavelos: Não há trabalhos de casa, não há praticamente retenções e as metodologias de ensino não seguem uma visão tradicional.

  3. Armando Constâncio diz:

    Não podia estar mais de acordo. A educação que proporcionamos aos nossos filhos e netos, através de uma rede de equipamentos escolares de razoável qualidade, está formatada num modelo de ensino que a prática já demonstrou estar ultrapassado.
    Sendo a cobertura escolar no Concelho garantida por uma rede de equipamentos públicos, não se podendo comparar o estatuto social das famílias marinhenses às das zona problemáticas da Brandoa ou da Reboleira, é difícil perceber, mesmo excluindo esses colégios privados que seleccionam as admissões dos seus alunos e recusam a renovação da matrícula aos que tenham chumbado, porque é que as nossas escolas, comparando realidades similares, obtiveram resultados pouco satisfatórios.
    Tenho lido e estudado, com redobrado interesse, o modelo finlandês e desafio todos os que se interessam por estas temáticas a fazê-lo.
    A escola é um espaço de liberdade, de diversão e de descoberta. Os alunos, logo desde o pré-primário, são orientados para a aceitação do convívio e da partilha com os colegas, através de uma orientação pedagógica virada para o conceito da descoberta de coisas novas, do recreio, do contacto com a música, com a pintura, escultura em barro ou plasticina e sempre que possível, do contacto com a natureza. Aprender a ler e escrever, nesta fase, está fora de questão. O importante é que as crianças interiorizem, que ir para a escola é um renovado prazer, não a imposição de um dever.
    No primeiro e segundo ciclo, com as necessárias adaptações, o conceito é o mesmo. O professor, desde a primeira aula, apresenta-se como um amigo mais velho, que está ali para os ajudar, não para os julgar e punir. Os trabalhos em grupo, a informalidade do posicionamento dentro da sala, podendo estar sentados no chão, normalmente sem sapatos, o apelo a que utilizem os tempos livres para brincar, a quase total ausência dos TPC, etc. ajudam a criar um clima de confiança que gera estabilidade emocional, respeito e gosto em estar na escola. Depois da família, é na escola que vão encontrar o amigo professor, que os espera e recebe com um aperto de mão, pronto para esclarecer todas as dúvidas e lançar novos desafios.
    Esta é a escola porque eu me bateria até à exaustão e não me venham dizer que a Autarquia não pode fazer nada, porque a competência é da entidade A, B, ou C.

  4. António Silva diz:

    Não sabia que poderia haver tanta autonomia nas escolas.
    Embora possa ser bom é preciso cuidado com determinados idealismos ou experimentalismos. Entendo eu (quem sou eu) que deve haver sempre uma articulação com as orientações nacionais para a educação e uma avaliação dos resultados.
    Além do mais cada escola ou agrupamento não é uma ilha e deverá haver coerência com os conhecimentos dos alunos que recebem e também com as necessidades dos alunos que saem, por forma a prepará-los melhor, seja para a continuidade dos estudos ou das suas carreiras profissionais.

    Nunca esquecer que estamos a educar e formar pessoas para viver no mundo real e não no mundo ideal que não existe. Em todas as actividades a competitividade é enorme, estamos a ser sistematicamente avaliados e, por isso, as pessoas têm de estar preparadas para essa realidade. Caso contrário continuaremos desajustados como até agora.

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