É TUDO UMA QUESTÃO DE ESCALA

Não tenho nada contra o espalhamento de asfalto à tonelada. O pessoal não abdica de utilizar a sua viatura de 4 rodas e um bom tapete negro, decorado com umas linhas brancas, uns tapetes a vermelho aqui ou ali e umas lombas para lembrar que há limites para tudo, até para a velocidade, é sempre bem remunerado em votos.

Asfalte-se, pois, mas ao mesmo tempo, é preciso pôr na agenda um conjunto de temas, para nos agitarem os neurónios.

Para não maçar e para que ninguém fique com um esgotamento, proponho três prioridades que os políticos locais e regionais deveriam pôr em cima da mesa, incentivando o debate.

1.ª PRIORIDADE

Numa região fortemente exportadora, em que produtos como o vidro de embalagem, os moldes, as cerâmicas, especialmente, são responsáveis por elevados volumes e peso de produtos exportados, o transporte para a Europa faz-se por via terrestre.

Só na Marinha Grande, diariamente, entram e saem do centro da cidade cerca de 600 camiões TIR, com impacto tremendo nas infraestruturas urbanas, na qualidade de vida das pessoas, na poluição do ar e nos custos a suportar pelas empresas.

Neste cenário, a estratégia de apostar na rede de autoestradas, em detrimento da ferrovia, foi um erro clamoroso, tanto mais que em quase toda a Europa se praticam restrições à circulação das viaturas TIR e se aposta fortemente na linha férrea.

É imperativo repensar a linha do Oeste, para a qual foram anunciadas operações de remodelação que são mera cosmética, colocando em cima dos estiradores o planeamento de uma linha que ligue esta região à linha do Norte e a articule com as futuras ligações a redes de transporte de alta ou média velocidade.

2.ª PRIORIDADE

Entre Pombal e Caldas da Raínha, desde os castelos, os monumentos, na Batalha e em Alcobaça, passando por Fátima, pelas praias, pelo turismo de natureza, quer na serra, quer nas matas nacionais onde existem circuitos da modalidade de Orientação já reconhecidas internacionalmente, a região possui um conjunto de relevantes produtos turísticos muito procurados e conta agora com uma importante rede de unidades hoteleiras de excelente qualidade, com uma ocupação, na época média e baixa, muito inferior à Grande Lisboa, Grande Porto e à região do Douro.

Este nosso património acaba por ser visitado como uma simples etapa dos circuitos turísticos com origem em Lisboa, onde se fixa o alojamento. Na verdade, havendo um aeroporto internacional em Lisboa e outro no Porto, este cenário é inevitável.

A abertura do aeroporto de Monte Real ao tráfego aéreo civil, para voos charter, é vital para promover e consolidar o Turismo na Região, alavanca necessária para o desenvolvimento de uma atividade económica geradora de emprego e de criação de riqueza.

3.ª PRIORIDADE

Para que qualquer destes dois desideratos se possam concretizar, mesmo que no médio/longo prazo, as autarquias, as associações empresariais, com especial importância o NERLEI, os empresários da Hotelaria, as instituições de ensino superior e todos os atores diretamente relacionados com o desenvolvimento económico, deveriam ser capazes de unir esforços e construir uma plataforma de entendimento sólida, por forma a captar a atenção dos órgãos de comunicação social e ganhar músculo para poder influenciar os decisores políticos.

Sobre Armando Constâncio

O meu nome é Armando Gonçalves Constâncio dos Santos, casado, com dois filhos. Nasci em 26 de Abril de 1948, em casa, no Casal da Formiga, cujo parto foi assistido pelo saudoso Dr. Coelho. Fiz a 3.ª classe na Marinha Grande, mas, em 1958, por altura das eleições em que participou Humberto Delgado, o meu pai foi despedido da Caixa do Pessoal da Indústria Vidreira, por razões políticas e eu tive que ir viver com os meus avós maternos para a aldeia de Pereira do Campo, entre Alfarelos e Coimbra, onde fiz a 4.ª classe. Já a vivermos em Lisboa, para onde o meu pai teve que deslocar a família, para tentar sobreviver vendendo vidro à comissão, comecei a trabalhar aos 14 anos e a estudar de noite. Aos 16 anos embarquei para Angola, sozinho, para me juntar à família que já lá estava, tendo começado de imediato a trabalhar na empresa onde trabalhava o meu pai, prosseguindo os meus estudos à noite. Após o 25 de Abril de 1974, fiz parte da Comissão Coordenadora da 1.ª Comissão de trabalhadores da SIGA, onde trabalhavam cerca de 1300 pessoas. Aderi ao MPLA e participei na organização da UNTA, Central Sindical do movimento. Em 14 de Novembro de 1975, após ter escapado de algumas tentativas de assassinato tentado pela FNLA, fui o último membro da família a abandonar Angola, por razões de segurança, tendo embarcado no navio Russo Ucrânea. Já na Marinha Grande, a viver em casa dos meus pais, juntamente com toda a restante família, consegui emprego na Iberoplás, como responsável da secção de recursos humanos, tendo evoluído para Director Comercial no início da década de 80. Fui membro da Comissão de Trabalhadores da Iberoplás, delegado sindical e dirigente sindical do Sindicato dos Trabalhadores de Comércio e Escritório do Distrito de Leiria. Em 1986, a convite da CDU, integrei em 4.º lugar a lista concorrente à CMMG, liderada por Emílio Rato, que ganhou as eleições com maioria absoluta. Nesta época, tive um papel importante no arranque da Zona Industrial da Marinha Grande e na organização das Feiras de Actividades Económicas, a primeira das quais foi no SOM, inaugurada pelo Presidente da República Mário Soares. Em Junho de 1989, seis meses antes de acabar o mandato, renunciei ao cargo de vereador a tempo inteiro e aceitei um convite da Iberomoldes para exercer o cargo de Director Geral da Edilásio Carreira da Silva, contra a vontade do PCP, que contava comigo para número 2 da lista que iria ser liderada por João Barros Duarte às eleições desse ano, que a CDU ganhou. A minha carreira na Edilásio foi interrompida, numa altura dramática da minha vida pessoal, após insistentes convites do PS para integrar a lista liderada por Álvaro Órfão, como independente, às eleições de 1993, que o PS ganhou, interrompendo um ciclo de 15 anos de gestão municipal da CDU. Fui vice presidente da CMMG durante 12 anos. Acabada a minha participação política, encerrado este capítulo demasiado longo do exercício de funções públicas, tentei voltar à Edilásio, para ocupar o lugar que detinha antes de ser eleito, nos termos da Lei, mas foi-me dito, com mais ou menos delicadeza, que após 12 anos de ausência o meu lugar tinha sido preenchido, as dificuldades porque passavam as empresas na altura impediam acréscimos de custos e eu era dispensável. Nada que eu não tivesse previsto. Em finais de 2015, decidi adquirir uma pequena empresa de cartonagem em Vieira de Leiria, tendo obtido financiamento integral, em forma de leasing, para poder concretizar o negócio, que ainda hoje se mantém.
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5 respostas a É TUDO UMA QUESTÃO DE ESCALA

  1. José Manuel diz:

    E que fez o seu candidato, o Carlos Logrado, para que alguma coisa mudasse? Não acha que tudo o que diz é apenas teoria? Repensar a linha do oeste quando se sabe que o Governo tem isso decidido há muito? Monte Real quando se sabe que os interesses instalados não vão permitir que isso aconteça. Que fizeram as câmaras lideradas pelo PS, seu partido, para que alguma coisa mudasse?

  2. Armando Constâncio diz:

    Caro José Manuel
    A minha intervenção neste espaço de discussão não está condicionada a coisa nenhuma. Desde que não ofenda ninguém, posso escrever sobre o que me vier à cabeça e “teorizar” sobre qualquer assunto.
    No meu texto, limitei-me a enunciar três questões fundamentais que nos deviam levar a pensar. O desafio é mesmo esse. Reflectir sobre estes assuntos. Pôr as pessoas a pensar e a desafiar quem pode a agir, para se darem alguns passos no sentido de alcançar esses objectivos.
    Pelo seu comentário, deduzo que não tem opinião e prefere recorrer à politiquice.
    Para esse peditório eu já dei, até durante anos demais e não vou por aí.

  3. Armando Constâncio diz:

    Fábio Seguro Joaquim_web
    Abertura da base aérea de Monte Real à aviação civil
    Fábio Seguro Joaquim, Deputado da Assembleia Municipal de Leiria
    17:10
    Um aeroporto civil em Monte Real pode vir a servir de alternativa aos aeroportos de Lisboa e Porto, em caso de impossibilidade de utilização do mesmos.

    É por demais evidente que a questão relacionada com a possibilidade de abertura da base aérea nª. 5 de Monte Real à aviação civil tem carecido de uma produtiva e, acima de tudo, consequente reflexão. Tal inabilidade releva da fraca capacidade de afirmação da conjugação de esforços dos diversos agentes políticos da região, ou mesmo de alguma falta de mobilização coletiva, e alargada, em prol de uma causa que se tem arrastado no tempo.

    Ainda nesta linha, importa recordar que as primeiras diligências para promover a utilização regular desta base aérea pela aviação civil datam de 1997, tendo em meados dos anos 2000 sido assinado um protocolo pelo então primeiro-ministro Pedro Santana Lopes, passando pela manifestação de disponibilidade por parte do gabinete de Azeredo Lopes, já no início do ano de 2016, que quer o Ministério que tutela, quer a Força Aérea estariam recetivas a “analisar o assunto”.

    Cabe desde já realçar que a região centro do país representa aproximadamente 30 mil milhões de euros anuais para a economia nacional (13,21% do PIB) e que o rendimento disponível bruto é de aproximadamente 20,5 mil milhões de euros (20,8% do valor nacional). Dispõe de mais de 255 mil empresas, mais de meio milhão de trabalhadores e conta com uma dinâmica social, cultural, turística, académica e empresarial que é transversal aos mais variados setores de atividade. Esta dinâmica encontra-se consolidada e apenas poderá sofrer um crescendo significativo com a aposta em infraestruturas que assim o permitam.

    Acresce aos argumentos socioeconómicos a possibilidade efetiva de um aeroporto civil em Monte Real poder vir a servir de alternativa aos aeroportos de Lisboa e Porto, em caso de impossibilidade de utilização do mesmos. Atualmente, em caso de impossibilidade de utilização dos dois supra referidos aeroportos, os voos que têm como destino Lisboa são desviados para o aeroporto de Faro e os voos com destino ao Porto são desviados para o aeroporto de Vigo.

    Face ao exposto, e a muito mais que poderia ser argumentado, urge compreender e clarificar os reais motivos pelos quais a abertura da base aérea de Monte Real à aviação civil ainda não é uma realidade.

  4. Deixem-me meter a “colher” neste tema.
    Concordo em absoluto com a revitalização da linha férrea do oeste. Mas não uma simples “operação de cosmética”. Deverá ser uma obra a sério! Desde as estações (gares), que todos sabemos que hoje em dia deverão ser cómodas e dispor de todas as facilidades e comodidades, caso contrário continuarão às moscas, dando força aqueles que não querem a sua revitalização, passando pelas carruagens, horários…etc. Tal como as facilidades para cargas e descargas de grandes volumes e pesos. Quantos camions fazem diariamente a viagem de Leiria|Lisboa|Leiria, no transporte de cereais para as rações?

    Quanto à abertura da Base Aérea de Monte Real à aviação civil, não concordo! Acho desnecessário…a menos que queiramos um BEJA 2!

    Sobre a terceira prioridade, de acordo. Temos vindo a assistir a uma divisão nas formas de estar e comunicar. A propósito, como se chama a actual região de turismo onde estamos inseridos? Rota do Sol …já era! A Nazaré já não faz parte da mesma região de Leiria, Batalha, Alcobaça e Fátima! Neste aspecto haveria muito que falar.

    Bom fim de semana.
    A. Carlos Jordão
    Batalha

  5. Armando Constâncio diz:

    Agradeço o seu comentário Carlos Jordão. Adicionou valor à discussão destes temas, mas permita-me acrescentar mais alguns elementos.
    Quanto à linha do Oeste, estamos de acordo. Tem que ser uma requalificação profunda, não só ao nível do equipamento circulante e da qualidade e conforto das estações que servem os utentes, mas mais ao nível do planeamento estratégico da linha. Não pode manter-se como uma linha regional entre Lisboa e Figueira da Foz. Ela tem que ser reestruturada como um eixo ferroviário que ligará toda a região Oeste à linha do Norte e através desta, aos grandes corredores ferroviários que nos ligarão à Europa através de comboios de média ou alta velocidade, quer de passageiros, quer de mercadorias. Uma linha de qualidade, que nos ponha a 1,5 horas de Lisboa, é fundamental para dar garantias de ligação funcional e prática de um futuro aeroporto civil em Monte Real.
    Já quanto ao aeroporto civil em Monte Real, a mim, admitindo que possa estar enganado, não me parece que se possa comparar ao de Beja. Pelas razões invocadas pelo deputado municipal de Leiria, que acima transcrevi, toda a nossa região se caracteriza pelo seu elevado dinamismo económico. As potencialidades turísticas, quer do Turismo Religioso, Monumentos, Sol e Praia, são enormes. Basta consultar o estudo feito pela Rolland Berger, encomendado há muitos anos pela ex Região de Turismo de Leiria e Fátima (antiga Rota do Sol) e agora Região de Turismo do Centro de Portugal, para perceber isso. O problema, é que não havendo a possibilidade de canalizar voos directos para a nossa Região, os turistas aterram em Lisboa, ou Porto, ficam nos hotéis dessas cidades e depois fazem circuitos de autocarro para tirar uma fotos no Mosteiro da Batalha, os mais religiosos deixam uma vela a arder em Fátima e regressam a Lisboa, sem utilizarem os nossos hotéis e gastando muito pouco no nosso comércio.
    Quanto ao nome ou à área de influência das Regiões de Turismo, esqueça. Isso é irrelevante. Somos um País tão pequeno, que é ridículo estar a tentar vender pequenas regiões, através de dezenas Regiões de Turismo, com presidentes remunerados, vogais, funcionários, etc, que só consomem recursos que o País não tem.
    A MARCA a vender, deve ser PORTUGAL e dentro desta marca, destacar o que mais importante temos para oferecer. Lisboa, Porto, Algarve, Fátima, Região Centro e os seus monumentos, Rio Douro, Minho e Turismo de Natureza.
    Nazaré e as guerras de capelinhas são episódios reveladores de uma visão microscópica da realidade e não contam, nem influenciam nada.
    Volto ao título deste blog. É preciso pensar em grande, mesmo que alguns pensem que somos utópicos.

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