O Jovem, a Velha, o Panda, e o Cota confuso

Ainda há pouco tempo atrás eu era um jovem, e tinha até um cartão no bolso que certificava que era mesmo jovem mas distrai-me não sei com o quê e de repente já não sou jovem. Agora sou aquilo que eu (jovem) classificava como “um cota”, e como “um cota” que sou tenho ideias parvas, e já não estou na moda do pensamento. A geração Y (os Millennials) que nasceu entre 1980 e 2000 está agora na liderança moral do mundo e as suas ideias são agora o mainstream dos media. São deles os valores que servem de guião para o filme em que vivemos.

Um jovem reúne uma serie de amigos pelas redes sociais e juntam-se todos na assembleia da república para exigir o fim de uma guerra no outro lado do planeta ou a proteção de uma espécie em vias de extinção e depois volta de autocarro para casa, sentado a responder aos comentários que os amigos fizeram sobre as selfies que tirou na manifestação; enquanto isso a senhora idosa que tem dificuldade a andar viaja em pé no autocarro porque não tem lugar.

Somos todos a favor da paz e amor no mundo, não me chateiem é com a velha, que só atrapalha. Nós amamos os Pandas, que são fofinhos e tal, não são como aqueles cães estúpidos dos vizinhos, que ladram à noite e mereciam era uma paulada. Fazemos likes nos posts de amigos que dizem que a mãe é a melhor coisa do mundo, e por isso pensamos, um dia sou capaz de ligar à minha “cota”, para ver se ela está a gostar do lar e tal. Comentamos “adoro” numa frase sobre a amizade escrita por alguém que já faleceu, e até a vamos aplicar na nossa vida algum dia, claro, mas hoje não porque não temos tempo para essas cenas. Incendiamos as redes sociais para criticar aquela figura publica que disse uma coisa má sobre os sem-abrigo, porque nós até somos bem educados enquanto pedimos a um para sair da frente de um pokemon que andamos a caçar. E insultamos o politico que deveria respeitar mais o que é publico enquanto estamos dois matulões a brincar em cima de um baloiço de crianças no parque até ele partir. E criticamos os políticos todos, e os partidos todos, que são todos iguais, porque têm todos exatamente o mesmo programa (aquele que não lemos) e as mesmas ideias (aquelas que não ouvimos) e vão fazer exatamente a mesma coisa (que sabemos ser uma vergonha).

Faz-me confusão, confesso. De um momento para o outro (ok, foram alguns anos) vi-me a passar por cima da barreira intergeracional e passei para o lado dos dinossauros. Aqueles que respeitavam mais os mais velhos, e respeitavam os pais, e respeitavam os animais mesmo que não percebessem nada de Pandas. E que viam, e que pensavam e que agiam a favor ou contra a opinião geral… não tinham tantos likes mas não viviam menos por isso.

Ass: um “cota” confuso.

Esta entrada foi publicada em Geral, Ricardo Macedo. ligação permanente.